Pesquisa em 48 mercados mostra que a demanda por informação sem alinhamento explícito resiste. O ambiente digital, porém, amplia a influência dos públicos mais polarizados e pressiona instituições científicas e públicas a adotar formatos que podem comprometer sua autoridade.
- 45% dos entrevistados preferem notícias sem ponto de vista específico, ante 22% que procuram fontes alinhadas às próprias opiniões.
- A minoria partidária comenta, compartilha, acompanha e paga mais por notícias, tornando-se mais visível para plataformas e veículos.
- Redes sociais e plataformas de vídeo já superam sites jornalísticos e televisão como fontes de informação.
- No Brasil, a confiança nas notícias caiu para 36%, enquanto 47% afirmam evitar o noticiário às vezes ou com frequência.
- Para a comunicação pública e científica, imitar influenciadores pode ampliar o alcance imediato, mas também diluir autoridade, reputação e reconhecimento institucional.
Durante mais de uma década, instituições jornalísticas, universidades e órgãos públicos foram orientados a procurar o público onde ele estivesse. A recomendação parecia incontornável: se a audiência migrou para redes sociais, vídeos verticais e sistemas de recomendação, a informação de interesse público deveria acompanhá-la. O problema é que essa adaptação deixou de envolver apenas linguagem e formato. Passou a exigir frequência, personalização, reação instantânea e uma presença permanente que aproxima instituições de criadores individuais, mesmo quando suas responsabilidades, métodos e objetivos são inteiramente distintos.
O Digital News Report 2026 sugere que esse movimento pode estar apoiado em uma interpretação incompleta do comportamento social. O público mais visível nas plataformas não representa necessariamente a preferência da maioria. Além disso, adaptar-se aos códigos do ambiente digital sem preservar as diferenças entre conhecimento institucional e opinião pessoal pode produzir um resultado inverso ao pretendido: conquistar atenção momentânea, mas perder a autoridade que torna a comunicação pública e científica necessária.
A maioria silenciosa e a minoria que domina o debate
Embora as redes sejam atravessadas por disputas políticas e conteúdos de confronto, 45% dos entrevistados em 48 mercados afirmam preferir notícias produzidas por fontes que não adotam um ponto de vista específico. A proporção é mais que o dobro dos 22% que buscam fontes alinhadas às próprias posições. Outros 15% preferem conteúdos que desafiem suas ideias.
Os resultados integram o estudo do Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, elaborado por Jim Egan, Craig T. Robertson, Amy Ross Arguedas, Nic Newman, Rasmus Kleis Nielsen, Mitali Mukherjee e Richard Fletcher. Realizada pela YouGov, a pesquisa ouviu 97.520 pessoas por questionário on-line, das quais 2.024 no Brasil. Como trabalha com respostas autodeclaradas, mede percepções e hábitos relatados, e não comportamentos diretamente observados.
A imparcialidade também aparece como expectativa coletiva: 46% consideram que as demais pessoas deveriam consumir notícias sem orientação explícita. Nos 40 mercados comparáveis, as respostas mudaram pouco entre 2020 e 2026, apesar do crescimento das plataformas e do aprofundamento da polarização em diversos países.
O contraste entre a preferência majoritária e o debate público decorre, em parte, da intensidade desigual da participação. Quem procura notícias convergentes com suas convicções tende a comentar, compartilhar, acompanhar política e pagar por conteúdo com maior frequência. Essa minoria se torna mais visível para os algoritmos e mais valiosa comercialmente. Assim, o ambiente digital super-representa os usuários mais engajados e pode induzir veículos e instituições a tratar seu comportamento como expressão do conjunto da sociedade.
O risco de confundir alcance com autoridade
A distorção ganha relevância porque a distribuição da informação migrou para espaços administrados por terceiros. Pela primeira vez, redes sociais e plataformas de vídeo se tornaram a principal forma de acesso às notícias: alcançam 54% do público, ante 51% dos sites e aplicativos jornalísticos e 52% da televisão. Com os chatbots de inteligência artificial, os intermediários chegam a 56%.
Nesse ambiente, jornalistas, universidades, centros de pesquisa e órgãos públicos disputam atenção em sistemas que recompensam reação imediata, personalização e circulação. A tentação é reproduzir o padrão dos influenciadores: centralizar a comunicação em rostos individuais, emitir opiniões rápidas, adotar linguagem de confronto e subordinar temas complexos às tendências do momento.
Para a comunicação científica, esse caminho pode enfraquecer justamente aquilo que diferencia o conhecimento especializado: método, revisão, reconhecimento das incertezas e acumulação institucional. O mesmo vale para a comunicação pública, cuja credibilidade depende de continuidade, impessoalidade, transparência e compromisso com direitos, inclusive quando a informação divulgada contraria expectativas ou interesses de parte da audiência.
Isso não significa rejeitar vídeos curtos, linguagem acessível ou a presença de pesquisadores e servidores nas plataformas. O erro está em copiar integralmente um modelo fundamentado na personalidade, na opinião e na fidelização de seguidores. Instituições não precisam parecer influenciadores para serem compreendidas. Precisam traduzir conhecimentos sem ocultar seus métodos, identificar responsáveis, apresentar evidências e deixar clara a diferença entre informação, interpretação e posicionamento.
O relatório mostra que 27% dos entrevistados recebem alguma notícia de criadores dedicados ao tema. Eles são considerados mais compreensíveis e próximos, porém menos confiáveis e menos imparciais. A comunicação científica e pública pode aprender com sua capacidade narrativa, mas perde sua função quando troca reputação institucional por popularidade individual.
Brasil combina alta exposição e baixa confiança
No Brasil, a distância entre as preferências é estreita: 37% escolhem fontes sem orientação específica e 34%, notícias que compartilham seu ponto de vista. Outros 8% procuram posições que desafiem suas opiniões e 22% não sabem responder. A vantagem da imparcialidade existe, mas é menor do que a média internacional.
Ao mesmo tempo, 53% dos brasileiros usam redes sociais para se informar semanalmente, nove pontos acima da televisão. Um terço recebe conteúdo de criadores especializados em notícias, enquanto 13% utiliza chatbots de inteligência artificial para essa finalidade — quatro pontos a mais do que no ano anterior.
Esses hábitos avançam em um cenário de fragilidade. A confiança geral nas notícias caiu seis pontos e chegou a 36%, o menor resultado brasileiro em 12 anos de acompanhamento. Além disso, 47% evitam o noticiário às vezes ou com frequência, e apenas 15% pagam por notícias digitais.
Para universidades, instituições científicas e órgãos públicos, esses números mostram que estar presente nas plataformas não basta. Parte do público que circula nesses ambientes não está procurando informação, autoridade ou reputação institucional, mas confirmação, entretenimento ou pertencimento. Submeter toda a estratégia a esse comportamento pode afastar justamente a audiência que ainda procura referências verificáveis.
A disputa, portanto, não é apenas por alcance. É pela capacidade de preservar instituições reconhecíveis em um ambiente que favorece personalidades; sustentar evidências onde prevalece a reação; e tornar o conhecimento acessível sem convertê-lo em opinião. A comunicação científica e pública precisa compreender os códigos das plataformas, mas não pode permitir que esses códigos determinem sua identidade.


