Estudo com mais de 2,2 milhões de publicações mostra que curtidas, compartilhamentos e alcance recompensam formas distintas de expressão. No X, a circulação favorece antagonismo; no Mastodon, raciocínio e nuance obtêm maior retorno.
- O estudo compara os sinais de atenção presentes no X/Twitter, Bluesky e Mastodon.
- Curtidas favorecem narrativas pessoais, afinidade e emoções positivas nas três plataformas.
- No X, compartilhamentos premiam insultos, ataques identitários e toxicidade, enquanto penalizam respeito, raciocínio e nuance.
- Bluesky favorece circulação mais neutra; Mastodon recompensa argumentação, compaixão e linguagem coletiva.
- Mensagens otimizadas para atenção obtêm maior retorno previsto quando se afastam da formulação factual original.
Durante anos, o debate sobre redes sociais e democracia se concentrou naquilo que as plataformas entregam ao público. Pesquisadores examinaram algoritmos, bolhas informacionais, desinformação e exposição a conteúdos polarizados para compreender se os ambientes digitais alteram opiniões, sentimentos e votos. Essa perspectiva, entretanto, costuma começar quando a mensagem já foi produzida.
Um estudo do pesquisador do pesquisador Petter Törnberg, do Instituto de Lógica, Linguagem e Computação da Universidade de Amsterdã, desloca a pergunta para uma etapa anterior. Em vez de investigar apenas o que as pessoas recebem, o trabalho analisa o que políticos, jornalistas, movimentos e instituições aprendem a produzir quando curtidas, compartilhamentos e visualizações se tornam medidas permanentes de sucesso.
A hipótese é que as plataformas funcionam como mercados de atenção. Elas não ordenam diretamente que alguém seja agressivo, emotivo ou simplificador. Contudo, mostram de forma contínua quais mensagens circulam mais, quais desaparecem e quais convertem visibilidade em influência, reconhecimento ou recursos. Com o tempo, esses sinais podem alterar não apenas a apresentação do discurso político, mas também os atores, conflitos e posições que conquistam espaço público.
Da distribuição das mensagens à produção da política
Intitulado The Politics Attention Makes: Platform Media Logic and the Mediatization of Politics, o artigo analisa mais de 2,2 milhões de publicações em inglês. Após os procedimentos de seleção, foram examinados 812.979 posts do X/Twitter, 500 mil do Bluesky e 950.050 do Mastodon.
Os três ambientes possuem estruturas diferentes. O X combina recomendação centralizada, otimização por engajamento e uma cultura marcada por conflitos. O Bluesky oferece identidades portáteis e feeds escolhidos pelos usuários. Já o Mastodon é descentralizado, distribuído entre servidores independentes e mais dependente de linhas do tempo cronológicas.
Törnberg propõe uma “análise do preço da atenção”: uma forma de estimar o retorno associado a características como emoção, respeito, raciocínio, nuance, compaixão, linguagem coletiva, insulto e ataque identitário. Para isso, utilizou modelos computacionais treinados para prever o engajamento produzido pelo texto, descontando vantagens relacionadas ao número de seguidores e ao momento da publicação.
O método não identifica a contribuição isolada do algoritmo. O sinal observado resulta da combinação entre arquitetura, regras, públicos, culturas, reputação dos autores e acontecimentos externos. Também não demonstra que determinada palavra causa mais compartilhamentos. O objetivo é tornar visível a estrutura de incentivos encontrada por quem depende de atenção.
Curtir e compartilhar são atos diferentes
Um dos resultados centrais é que engajamento não constitui uma categoria única. As curtidas seguem uma lógica relativamente semelhante nas três plataformas: favorecem histórias pessoais, afinidade, respeito, compaixão e emoções positivas. São formas de aprovação social e reconhecimento entre usuários.
A circulação, contudo, responde a gramáticas específicas. No X, os compartilhamentos de publicações sem links externos apresentaram a estrutura mais antagônica. Insultos, ataques identitários e toxicidade receberam retornos positivos, enquanto respeito, afinidade, raciocínio, nuance e narrativas pessoais foram penalizados.
Isso não significa que quanto maior a hostilidade, maior o alcance. O retorno da toxicidade é limitado e não linear: níveis moderados podem diferenciar a mensagem e provocar reação, mas conteúdos extremos encontram rejeição, moderação ou públicos mais restritos. O artigo descreve, portanto, um prêmio ao antagonismo delimitado, e não uma recompensa ilimitada à agressividade.
No Bluesky, os reposts favoreceram uma linguagem mais neutra e com menor intensidade emocional. Já no Mastodon, os impulsionamentos recompensaram raciocínio, nuance, compaixão, afinidade e expressão coletiva. Ataques e insultos também obtiveram algum retorno, mas tiveram peso menor dentro de uma estrutura predominantemente argumentativa e relacional.
O alcance no X apresentou ainda outra lógica. As impressões foram mais associadas à curiosidade e à linguagem analítica do que ao antagonismo explícito. Uma mensagem pode, portanto, ser vista sem necessariamente provocar o tipo de ação pública representado pelo compartilhamento. O resultado reforça que visualização, aprovação e recirculação possuem significados políticos diferentes.
Quando a fidelidade factual se torna custosa
O estudo também realizou um experimento exploratório de reescrita. Declarações neutras foram reformuladas em estilos como emocional, moralizado, pessoal, conflituoso e sensacionalista. Em seguida, os modelos selecionaram as versões com maior retorno previsto em cada plataforma.
Quando as reformulações precisavam preservar rigorosamente o conteúdo original, o ganho estimado de atenção foi pequeno. Quando receberam maior liberdade para alterar ênfase e enquadramento, o retorno previsto ficou entre quatro e seis vezes maior. Em contrapartida, as mensagens se afastaram mais da formulação inicial e incorporaram personagens, adversários, identidades coletivas e conflitos morais.
O resultado não prova que as plataformas causem desinformação, nem que produtores humanos realizariam as mesmas mudanças. As versões geradas sequer foram submetidas a uma verificação factual independente. O experimento revela algo mais específico: dentro dos modelos estudados, disciplina semântica e maximização da atenção apontaram para direções diferentes.
Essa tensão tem implicações para a política, o jornalismo e a comunicação institucional. Quando visibilidade se torna critério dominante, qualificação pode parecer hesitação, contexto pode ser interpretado como excesso e precisão pode perder espaço para mensagens com culpados, ameaças e conflitos facilmente reconhecíveis.
A pesquisa mostra, porém, que esse resultado não é inevitável nem igual em todos os ambientes. Mastodon e Bluesky apresentam incentivos menos antagônicos do que o X, embora não estejam livres de toxicidade. Mesmo sem um algoritmo centralizado de engajamento, o Mastodon produz sinais claros de recompensa, o que indica que a pressão por atenção também pode surgir das culturas, públicos e mecanismos sociais de uma plataforma.
O problema, portanto, não se resume a retirar algoritmos ou trocar de rede. Está na transformação da atenção em uma medida pública e permanente de valor. Como esses indicadores parecem expressar aquilo que “as pessoas” desejam, produtores podem interpretar uma amostra desigual e moldada pelas plataformas como retrato da sociedade.
O desafio apontado pelo estudo é político e econômico: organizar ambientes nos quais argumentação, precisão e ambição cívica não sejam apenas permitidas, mas recompensadas. Caso contrário, as plataformas continuarão selecionando não somente as mensagens que circulam, mas também os estilos de liderança e as formas de conflito com maior capacidade de sobreviver na disputa pela visibilidade.


